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A UTOPIA NESSA ERA DE INCERTEZA

Jeovani Lemes de Oliveira¹

 

Inicialmente faz-se necessário justificar o fato do empréstimo do título de texto de Zygmunt Bauman, mais precisamente um capítulo da obra Tempos líquidos. Nessa obra o autor esclarece-nos que vivemos numa época marcada pelo medo. No mundo atual há uma cristalização do medo. Conforme Bauman, “o medo agora se estabeleceu saturando nossas rotinas cotidianas”.  E esse medo é motivado por um estado contínuo de insegurança. Afinal, temos um mundo fragmentado, incerto e imprevisível. De forma que, conforme o crítico, uma das tarefas do Estado moderno tem sido administrar o medo.

Preliminarmente cumpre dizer que a ideia de líquido, nos textos de Bauman, refere-se à condição de as organizações sociais não manterem mais sua forma por muito tempo “pois se decompõem e se dissolvem mais rápido que o tempo que leva para moldá-las”.

A incerteza e o medo que advém dela, frutos da realidade que vivemos, esta, por sua vez, moldada ou estruturada pelo capitalismo ou mais recentemente pelo neoliberalismo, fazem com que sonhemos com um mundo sem aflição, sem as agruras que nos assolam.  Esse sonho é o mundo utópico. As utopias, afirma Bauman, nasceram com a modernidade e só na atmosfera moderna puderam respirar. Lembrando que é na modernidade que o capitalismo se tonou ainda mais severo, aumentando as distancias sociais, a exploração, as desigualdades.   

No nosso contexto atual, face aos delitos e até crimes ocorridos na ou pela administração do PT, considerando assim os que já cumpriram as etapas do processo, tem-se instaurado, sobretudo nas mídias sociais, uma crescente e perniciosa divulgação de uma lógica caótica e absurda, se é que esse oxímoro tem alguma validade, dado que conceitualmente é controverso. Enfim, o que se tem posto é uma “lógica” que apregoa ser a solução para a superação dos eventos atuais a guinada à direita, mais precisamente a ultradireita, chegando facilmente ao assustador paroxismo do culto à ditadura militar.

A simples apologia ao militarismo e suas práticas já é algo assustador, pois denota, no mínimo, uma ignorância histórica. E, pior que isso tem-se observado tanto pelas redes sociais quanto pela mídia oficial, uma total ignorância e mesmo uma negação dos atos criminosos terríveis cometidos durante e pela ditadura militar no Brasil. De pessoas simples a articulistas de revistas famosas de divulgação nacional, passando por artistas descompromissados, o que vê são opiniões aberrantes no sentido de contestar os dados históricos que relatam sobre o quão pernicioso foi o militarismo no Brasil. O discernimento sobre esse capítulo horrendo da história do país, marcado por torturas, perseguição e extermínios, subversão do direito e repressões, ocorreria, por exemplo, com a leitura e compreensão do relato feito por D. Paulo Evaristo Arns.          

O entendimento de que a ditadura militar ou os políticos de assumida postura de extrema direita são a solução para o futuro do país é o mesmo que tentar apagar um fogo com gasolina, levando em consideração apenas o fato de ela ser líquida. Isso porque nesse caso, ao invés de utopia, estaremos caminhando para uma distopia. Ou seja, o inverso do utópico.

É evidente que há um descontentamento do brasileiro mediante o quadro atual, entretanto esse é um momento para ponderações, um momento para exercitar as virtudes cardeais. Não é uma saída o maquiavelismo que apregoa o retorno aos tempos considerados “de chumbo” só porque se apresentam como uma antítese ao que está posto. Sobre esse aspecto é necessário uma compreensão mais fundamentada, um conhecimento histórico e social. É preciso, principalmente num país como o Brasil onde o analfabetismo funcional e político tem sido uma constante, o exercício da prudência, da sabedoria e de outras virtudes, para que se caminhe rumo à superação dos medos promovidos pelo estado de coisa atual e,  evidentemente, ter uma postura mais crítica, analítica e dialética diante da realidade, sobretudo num momento em que há eleições iminentes.                

 

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1. Professor e poeta. Graduado em Letras, especialista em Literatura Infanto-Juvenil e Ensino e mestre em Estudos Literários pela Unemat, Campus de Tangará da Serra.