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A CULTURA AFRICANA E O SEU ESTUDO NA ESCOLA

A CULTURA AFRICANA E O SEU ESTUDO NA ESCOLA

 

 

SANTOS, Angela Oliveira¹

   OLIVEIRA, Odair Dias de²

                                                       SANTOS, Ione Dias de Oliveira³

 

 

RESUMO

 

 A proposta deste artigo é relatar as reflexões construídas a partir da observação de uma sequência didática proposta aos educandos do 3º ano do 1º ciclo, 4º e 5º anos do 2º ciclo relacionados ao tema “Africanidade” de uma escola da Rede Municipal. A perspectiva de trabalho é refletir sobre a valorização da cultura negra e seus afrodescendentes e afro-brasileiros como formadora da nossa cultura, reconhecendo a sua presença de forma positiva nos diversos segmentos da sociedade, no que diz respeito à literatura, arte, culinária, religião, música e dança, estimulando o respeito à diversidade com o intuito de formar cidadãos preocupados com a coletividade e dessa maneira discutir as relações raciais no ambiente escolar por meio das rodas de conversa, para um posicionamento mais crítico frente à realidade social em que vivemos.   

       

Palavras – Chave: Cultura. Africanidade. Sociedade. Respeito.

 

 

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[1] Professora da Educação Básica, habilitado em Pedagogia pela UFMT (NEAD)

2 Professor da Educação Básica, habilitado em Pedagogia pela UFMT (NEAD), pós-graduado em Gestão Escolar pelo Instituto Prominas. Email: odairoliveira6@hotmail.com

3 Professora da Educação Básica, habilitada em Pedagogia pela UFMT (NEAD), pós-graduada em Alfabetização e Letramento pelo Instituto Prominas. Email: idola13@hotmail.com

Introdução

O interesse pelo tema afro nasceu para entendimento de algumas situações cotidianas mediante uma visão de senso comum, justificadas com ideias pré-concebidas, sem fundamentação histórica quanto aos aspectos da exclusão dos povos africanos e seus descendentes no Brasil. Notamos que estas ideias são consequências da falta de conhecimento da História da sociedade africana e do papel histórico desempenhado pelos afrodescendentes no Brasil.

Segundo Ana Maria Machado, (Escritora e membro da academia Brasileira de Letras) em sua carta, “Duas vergonhas” diz que:

Os males causados pela escravidão são óbvios. Fomos o último país ocidental a aboli-     la. Como um todo, o Brasil achava normal tratar gente como mercadoria-comprada, vendida, alugada, deixada de herança, dividida entre mais de um dono. Não apenas isso, mas vista como propriedade de outras pessoas. Quando finalmente veio a abolição, tão tardia, foi envolta em discussões sobre indenizações. Não aos que tinham sido escravos, sem liberdade até então.

Esta análise precisa ser focada em um contexto histórico que resgate o papel do ocidente na realidade do continente africano e as implicações deste discurso no cotidiano escolar, trabalhando com diferentes linguagens e documentos históricos em uma perspectiva que permita que os professores e os alunos reflitam sobre a presença africana na vida cotidiana e suas representações.

Esse conhecimento será possível a partir da compreensão de diversos fatores que envolvem essa temática.

1. Cultura

O termo cultura surgiu no século XI para indicar o cuidado dos homens com os deuses (culto), bem como o cuidado dos homens com a natureza, sentido usado até hoje.

A principal característica humana é a cultura, sendo que cada cultura elabora a sua maneira de viver e conceber o mundo e diversifica os homens. Hoje as ciências sociais, e especialmente a antropologia na escola têm a função de tornar o mundo melhor através da superação de ideias pré-concebidas, pois hoje tem um olhar histórico sobre a sociedade, entendendo que a cultura também é uma construção histórica.

            A forma que cada grupo humano tem de pensar, se organizar, trabalhar, sonhar, ter lazer, se modifica constantemente e só vamos entender os porquês, compreendendo que a grande diferença entre os povos no passado e no presente são resultados de uma construção cultural.

            É nesta perspectiva antropológica e histórica do conceito de cultura, que se inserem a orientação referente ao tema africanidade.

2. Cultura e escola

Ainda hoje, apesar de grandes transformações e do acesso amplo a informações, temos um mundo tomado pelo preconceito. Há uma frase do pastor protestante e ativista dos direitos civis norte-americanos, Martin Luther King que retrata bem isso. "Aprendemos a voar como pássaros e a nadar como peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos”.

No Brasil durante muito tempo a situação da população negra foi ignorada sob um mito de “democracia racial”, comuns em opiniões que negavam as desigualdades raciais, com afirmativas, de ser o Brasil uma nação sem preconceito. Mas movimentos negros e pesquisa acadêmica e estatística a partir da década de 80 revelou um quadro peculiar desta realidade e do seu ensino.

O negro não trabalhou só nas plantações. Trabalhou nas artes, na mineração. O racismo e a discriminação são presentes na sociedade e na escola, visto que a escola reproduz também as características da sociedade em que se insere. Pesquisas mostram que há um racismo sutil na sociedade brasileira e da mesma forma ele aparece na escola. Portanto a primeira condição para mudar este quadro é assumir que ele existe.

A história brasileira se revela através de uma pluralidade étnica, sendo esta produto de um processo histórico que inseriu num mesmo cenário três grupos distintos que foram: os portugueses, os índios e os negros de origem africana. Esse contato permitiu uma interrelação entre as culturas, levando à construção de um país inegavelmente miscigenado, mas que o cotidiano camufla, através de uma construção da ideia de “democracia racial”, práticas excludentes e que são naturalizadas pelo discurso da sociedade e até mesmo da escola.

3. TRABALHANDO A CULTURA AFRICANA NA SALA DE AULA

A sequência didática foi proposta em três momentos. Selecionamos aspectos diversos da cultura afro-brasileira e apresentamos aos alunos através do material didático, recurso audiovisual e pesquisas no Laboratório de Informática, visto ser um tema muito amplo.

No primeiro momento, fizemos uma abordagem através de uma conversa informal sobre o tema, e em seguida uma exposição sobre a utilização do trabalho escravo no Brasil, as condições e como se deu o tráfico negreiro, identificando as principais regiões da África de onde os escravos foram trazidos. Em seguida questionamos os alunos sobre como eles acreditavam que os escravos reagiam perante a situação em que viviam.

Destacamos que os acordos feitos entre traficantes europeus e autoridades nativas africanas, garantiam a troca de produtos como aguardente, tabaco e armas por escravos.

Através da utilização de um mapa, demonstramos aos alunos as principais regiões fornecedoras de escravos, como Congo, Senegal, Angola e Moçambique, destacando a diversidade cultural entre as diversas comunidades e reinos nativos, analisando estatísticas sobre a população afrodescendente no Brasil e as populações quilombolas.

Dando continuidade as atividades, propomos a leitura do livro “Pretinho, Meu Boneco Querido” de Maria Cristina Furtado (Editora do Brasil, 2008. Edição 2ª) e depois, promovemos uma discussão reflexiva sobre a história.

Coletivamente os alunos construíram um boneco negro e todos os dias um aluno era sorteado para levá-lo para casa com o compromisso de relatar por escrito a experiência com o boneco. Solicitamos também que cada aluno desenhasse sua família para uma análise de como se percebiam no âmbito familiar.

Exibimos o filme: Kiriku e a Feiticeira (Direção e roteiro: Michel Ocelot. Produção: Didier Brunner, Jacques Vercruyssen, Michel Ocelot, Paul Thiltges. Ano 1998, Bélgica, França, Luxemburgo), no qual os alunos tiveram a oportunidade de conhecer um herói minúsculo que não é branco e que salva sua aldeia de uma perigosa feiticeira. Propomos aos alunos que desenhassem o que acharam mais significativo no filme.

            O segundo momento, iniciamos com a leitura e discussão do livro "Menina Bonita do Laço de Fita" de Ana Maria Machado (Editora Ática, 2011.Edição 9ª), e proporcionamos um momento onde os alunos montaram uma paleta com massa de modelar com tons de bege e marrom, misturando assim as cores, como se uma cor fosse o pai e a outra a mãe. Isto permitiu que a criança percebesse porque possui tal cor de pele.

            Aproveitamos a história de Ana Maria Machado, que demonstra nitidamente o que acontece no Brasil: a miscigenação.

            Para ficar bem claro sobre o assunto miscigenação, os alunos utilizaram revistas para a pesquisa de figuras de personagens negros ou afrodescendentes, para conversação e montagem de um painel sobre a melanina como agente definidora da cor da pele, cabelos e olhos do ser humano.

            Trabalhamos também as máscaras e suas histórias.  Os alunos descobriram muitas histórias através de pesquisas na internet, leituras em livros, análise de gravuras e fotografias, o artesanato, a comida e sua influência na cultura brasileira e religião desses povos.

Com ajuda, os alunos confeccionaram máscaras de diferentes modelos e bem coloridas, para exposição em cartazes. Foram várias aulas de muito aprendizado, e a cada aula eles queriam saber mais sobre a cultura africana. Através de muitas conversas e leituras, todos aprenderam um pouco mais sobre a cultura tão rica que é a dos africanos e sua influência na formação do povo brasileiro.

Entendemos, entretanto, que trabalhar com a diversidade cultural em sala de aula passa também pela compreensão das questões religiosas, além daquelas referentes ao lazer, aos mecanismos de resistência, a linguagem, a música, a expressão artística e literária, a dança, a representação, enfim, de inúmeros elementos que possibilitam a produção cultural e artística dos negros no Brasil.

No terceiro momento, promovemos a criação de uma história em quadrinhos a partir da pesquisa do Dia da Consciência Negra e Zumbi dos Palmares. Fizemos recortes que abordam diferentes aspectos da arte, da dança, da religiosidade e de algumas bandeiras de países africanos.

Usando o recurso de dobradura, os alunos construíram casas africanas, explorando também as cores e as formas geométricas utilizadas por eles.

Discutimos a capoeira e os instrumentos utilizados e apresentamos danças e brincadeiras de origem africana. Os alunos também aprenderam como os africanos produziam seu próprio refrigerante, que para eles foi uma descoberta muito interessante, pois se dedicaram com bastante entusiasmo para ver o resultado daquela experiência. Foram dias de espera para ver como seria o resultado de tanto esforço.

Fizemos ainda o estudo de alguns remédios que eles usavam para má digestão; exploramos na oportunidade o chá do boldo.

            Todos esses trabalhos foram apresentados em cartazes; as máscaras e suas histórias, a receita do refrigerante juntamente com o produto feito por eles e também o chá do boldo que foi mostrado e explicado para que serve.

Durante toda a sequência didática tivemos muitas leituras de livros com protagonistas negros, em que a turma era reunida para ler histórias que tratam da diversidade e valorizam o respeito à diferença. Era nas rodas de conversa que aproveitávamos para debater eventuais conflitos gerados por preconceitos.

Um dos problemas enfrentados pelas crianças negras é relacionado aos cabelos. Não é difícil ouvir algumas falando que gostariam de tê-los lisos. Mexer nos cabelos e trocar carinho é uma forma de cuidar delas, romper possíveis barreiras de preconceitos e aprender que não existe cabelo ruim, só estilos diferentes.

Por meio da resistência política, da religião, da arte, da música, da dança e da sensibilidade para com a ecologia o negro produz, participa e vivencia a cultura afro-brasileira. Assim é possível perceber na alimentação, no vestuário, na oralidade, no gestual, na sonoridade, nos odores ou sabores. São sinais que nos permitem compreender a diversidade e a complexidade da realidade histórica da sociedade afro-brasileira.

            Após o estudo mais detalhado sobre a cultura africana, percebemos nos relatos dos alunos que os mesmos passaram a reconhecer e buscar valorizar a cultura africana e afrodescendente, como formadora da nossa cultura e a constante presença da marca africana na literatura, na música, na culinária, na arquitetura, na linguística, na criatividade na forma de viver, de pensar, de dançar e de rezar.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As atividades propostas e as reflexões elaboradas durante as orientações da sequência didática nos permitiram confirmar a expectativa de que a superação das questões de preconceito pode ser feita via conhecimento. A compreensão de fato do conceito de cultura pode se constituir num elemento de combate efetivo a toda forma de discriminação, construindo um caminho que precisa ser percorrido por todos.

            Ao iniciar uma sequência didática e desenvolver atividades com imagens, máscaras, música, literatura, dança e etc., ao compreender e refletir sobre esses aspectos fazem com que os envolvidos no cotidiano escolar repensem suas práticas e pensamentos.

Entendemos que um trabalho efetivo ajuda na construção de valores multiculturais numa sociedade que se tem pautado pela exclusão e discriminação, através de uma nova compreensão de pensar o outro e entender a relação com o conjunto de pessoas de sua comunidade.

            Permite, até mesmo, pensar a identidade racial, cultural e o próprio conceito de cidadania, visto que a cidadania não se dá só por direito, mas precisa ser pensada de fato, para que seja colocada em prática no convívio de uma sociedade que tem o ideal de ser mais justa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ReferÊncias

http://www.opet.com.br/faculdade/revistapedagogia/pdf/n3/1%20%20ARTIGO%20CLEUSA.pdf

www.cartafundamental.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anexos

(ilustração)

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