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Tempo e narrativa

Antonio Veras Nunes e Angela Romão Sobrinho

O presente artigo tem como objetivo passar aos leitores a ideia de tempo e narrativa na concepção literária.

Palavras chaves: tempo – narrativa- literária.

Narrar é contar. A narrativa está presente em nosso dia a dia de diversas maneiras; através da fala cotidiana, quando chego em minha casa e narro como foi o meu dia de trabalho na escola, nos estudos e outros acontecimentos.

O conto “O homem sozinho na estação ferroviária” de Sérgio Sant´Anna é um exemplo  de narrativa. Nele o narrador permite ao leitor perceber que o homem do qual fala está retratado em uma pintura. O quadro com a pintura do homem com uma maleta no colo, permite ao narrador fazer algumas afirmativas como: “Carrega todos os indícios de uma civilização que a Europa largou nos trópicos, desamparada. Um homem colonial e conservador, embora o negue até para si mesmo”.  O elemento principal é a temporalidade.

O quadro do conto pode ser apreendido pelo olhar, de forma instantânea, ao representar uma cena estática, a narrativa se desenvolve no tempo. O imaginário do narrador se debruça sobre o homem da estação atribuindo-lhe um passado. O mais terrível, porém, nesse quadro, é o que não vemos nele. E o mais terrível diz respeito ao passado e o medo do futuro.

Paul Ricoeur afirma que toda narrativa exibe um mundo temporal. O tempo torna-se tempo humano. Toda e qualquer narrativa reproduz, de uma maneira ou de outra, a experiência humana do tempo.

A distinção entre narrativa histórica e narrativa ficcional está no fato de que a narrativa histórica é constrangida pelo tempo cronológico e a narrativa ficcional não.  Raízes do Brasil e Retrato do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda e Paulo Prado são exemplos de narrativas históricas, porque obedecem à cronologia, buscam representações para a origem da sociedade brasileira. Ambos retomam o Brasil do período colonial.

O tempo ficcional é guiado apenas pela própria estrutura da narrativa em que se insere. A narrativa ficcional pode operar com anacronismo, interromper e inverter o tempo cronológico.

O tempo físico na narrativa diz respeito à durações dos minutos, dias e anos. Já o tempo psicológico diz respeito a maneira como o sujeito vivencia o tempo.  O tempo psicológico está ligado às emoções da vida. Quando alguém espera uma notícia ou o nascimento de um filho poder ter a senção de que o tempo demora a passar, em função de seu estado psicológico dominado ansiedade.

A narrativa ficcional tira partido de todos os seus elementos para criar efeitos que possam engajar o leitor. Uma obra importante que apresenta ficção do escritor Victor Giudice “O conto se chama O arquivo e foi originalmente publicado na obra do escritor chamada Necrológico, publicada em 1973”.

O conto “Arquivo” relata a vida de um trabalhador chamado João, que por muitos anos trabalhou em uma empresa, por várias vezes foi rebaixado de posto e salários. Quando estava próximo de aposentar acabou sendo desumanizado pelas leis de mercado e pela cobiça dos patrões. Essa é a realidade do mundo capitalista, assim, como João existe milhões de brasileiros excluídos ou incluídos formal ou informalmente no mercado de trabalho.

O tempo cronológico está relacionado ao tempo físico ao mesmo tempo em que pode ser mensurado, se organiza a partir de datas que se tornam referência para outras datas.

O tempo histórico está relacionado com outro tipo de medida: a forma como se configuram unidades para a abordagem dos acontecimentos e seus processos de transformações. Assim como na história política, o tempo histórico se dá por unidades como Idade Média e Idade Moderna, na história da literatura, o tempo histórico se configura através da periodização literária: Romantismo, Realismo, Modernismo, Pós-modernismo.

O tempo histórico é cultural e decorre de um conjunto de valores, podendo ser relativizado por novas gerações de historiadores que podem criar novas unidades para se referir ao passado com o presente. Os historiadores do século XIX perceberam sutilezas na cultura do século XVII que não haviam sido percebidas.

A narrativa pode se utilizar de verbos no passado, mas apresentar um narrador que se posicione claramente no presente. O passado é sempre retomado e recontado para que o narrador estabeleça relações de causalidade que justifiquem, diante do leitor, seus atos e crenças no presente.

A história diz respeito à realidade narrada, aos personagens e acontecimentos. Isso significa dizer que a mesma história pode ser contada por uma narrativa literária e por um filme. O discurso refere à maneira de narrar. O tempo da história se refere ao tempo sobre o qual se narra. O tempo do discurso nem sempre obedece à ordem dos acontecimentos. O tempo da narrativa é medido em função das relações entre tempo do narrar e o tempo narrado. No conto “A causa secreta” fica nítida a desobediência à ordem cronológica e a dramatizada da narrativa.

Benedito Nunes apresenta algumas figuras de duração nas obras de literaturas brasileira.  São elas:

a)    Sumário: quando a narrativa abrevia os acontecimentos em um tempo menor do que o da suposta duração na história.

b)    Alongamento: quando a narrativa, ao contrário do que ocorre no sumário, prolonga o tempo da duração do discurso, de forma que a narrativa dura mais que o tempo da história.

c)    Pausa: quando o tempo da história se interrompe para dar lugar à descrição.

d)    Elipse: quando se dá a omissão de um acontecimento que pode ou não vir a ser revelado no decorrer da narrativa.

Ao longo de toda narrativa de Dom Casmurro, há exemplos de outra figura de duração, a pausa, já que o narrador, em diversos momentos, interrompe a história para se ater a reflexões. Então, Dom Casmurro é um exemplo de elipse.

O primeiro capitulo de Macunaíma de Mario de Andrade é um exemplo de sumário. Em um único capitulo, o herói nasce e cresce.

Concluindo podemos dizer que narrar é contar aquilo que vivenciamos na realidade. Na literatura são muitas as obras literárias que nos dão o prazer de conhecer a variadas formas de narrar. Narrativa histórica, cronológica, físico e psicológico. Narrativa em primeira e terceira pessoa.