Nos últimos tempos, tornou-se constante no âmbito educacional, a expressa preocupação em aproximar dois elementos imprescindíveis para um bom desenvolvimento sócioeducativo: escola e pais de alunos.

Philippe Perrenoud em As dez novas competências para ensinar dedica um capítulo intitulado Informar e envolver os pais para falar sobre como a escola e os professores podem relacionar-se diferenciadamente com os pais de alunos. O verbo diferenciar refere-se ao fato de que existe participação de alguns pais nas atividades da escola quando são solicitados, no entanto a presença dos mesmos restringe-se aos Conselhos Escolares, nos quais, torna-se obrigatória e necessária, em razão de sua finalidade, e, em reuniões destinadas à entrega de notas, relatórios ou conversas que abordam aspectos gerais dos alunos, muitas vezes sobre as dificuldades e questões disciplinares, sem que ambas as partes possam realmente falar sobre o processo educacional em que estão inseridas. Por situações como estas e por tantas outras, faz-se necessário a abertura de novos caminhos para que o diálogo aconteça efetivamente, sem ser considerado apenas como um contato obrigatório esporadicamente. De acordo com Perrenoud, essa situação pode ser modificada se pensarmos uma forma de diálogo integradora, tornando essa relação mais que uma “mera questão de competências”.

O autor destaca ainda que esta parceria pode desenvolver a confiança mútua transformando o processo educativo numa mesma perspectiva, ou seja, numa corrente em que os elos são acrescidos na mesma direção, em busca da almejada qualidade do ensino. A tese é a de que conscientizando claramente os pais sobre o funcionamento real no âmbito escolar, em todos os seus aspectos, diminuam as divergências entre os dois segmentos, gerando uma relação mais produtiva. É comum ouvir em diversas situações o discurso no qual “os pais” fazem parte da “comunidade escolar”, mas na prática o que ocorre é um distanciamento das partes, pois alguns profissionais educadores não são favoráveis a que pais conheçam de perto o funcionamento da escola como um todo por sentirem-se, de certa forma, vigiado no desenvolvimento de suas funções. Por outro lado, se essa questão for pensada pelo ângulo da ‘divisão ou troca’ de experiências direcionadas ao mesmo objetivo que é o de educar, a integração diferenciada dos pais pode dar força ao trabalho dos professores, pois os pais que participarem do processo ou que, pelo menos, conheçam o trabalho dos profissionais educadores somarão forças dando maior credibilidade e endosso às ações desenvolvidas na escola. Além disso, os alunos também perceberão que toda a sociedade está preocupada com o que acontece na escola e seria natural aumentar o comprometimento com a vida escolar.

Perrenoud lança ainda um questionamento: Por que os pais criariam obstáculos à aprendizagem de seus filhos? A pedagogia escolar em toda a sua estrutura pode tranquilamente responder a essa questão porque é formada por pessoas capacitadas para a promoção da aprendizagem e da mesma forma que consegue manter-se firme diante de tantas divergências políticas, administrativas, pessoais e até mesmo pedagógicas, consegue também deixar claro qual é o seu papel social. Não é difícil explicitar as intenções e finalidades de suas ações até mesmo aos pais mais exigentes que possam existir. A proposta é ‘dialogar’, mostrar sua capacidade de promover ações democráticas em benefício da educação.

Há ainda muitos outros aspectos que podem ser considerados de relevância quanto à presença efetiva dos pais na escola, como por exemplo, as dificuldades diárias enfrentadas pela instituição, problemas de discriminação e preconceitos, problemas disciplinares e emocionais de crianças e adolescentes desmotivados para a aprendizagem e ainda as dificuldades financeiras da escola. Sanariam dúvidas referentes aos recursos destinados à escola, ao uso consciente de materiais, enfim às necessidades do cotidiano escolar. Faz-se necessário, portanto, que haja uma verdadeira conscientização sobre o que acontece no ambiente escolar para que a tarefa de educar da escola ganhe pais aliados e não omissos ao processo educativo dos seus filhos.

Os pais devem cumprir o seu direito de participar, direito que inclusive constitui o parágrafo único do capítulo IV do Estatuto da Criança e do Adolescente que diz:

“É direito dos pais ou responsáveis ter ciência do processo pedagógico, bem como participar da definição das propostas educacionais.”

Nota-se, portanto, que faz parte das inúmeras discussões sobre o papel social da escola do nosso tempo, as questões referentes à aceitação das diferenças e da importância de englobar as diversidades no ambiente escolar. Também é parte destas discussões a adoção de novos paradigmas, novos rumos para a prática educacional. Dividir inquietações pode ser um passo para a melhoria do imenso e interminável trabalho escolar de instruir cidadãos. Adotar novos paradigmas significa ousar, quebrar barreiras, lançar novas propostas, tentar de forma diferente vencer nossos desafios, principalmente, o de educar melhor.

Estatuto da Criança e do Adolescente: Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Brasília: Secretaria de Estado dos Direitos Humanos, Departamento da Criança e do Adolescente, 2002.

PERRENOUD, Philippe. Dez novas competências para ensinar. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

Professora Eliene Cristina de Jesus