Av. Mato Grosso - Nº 175/ Centro, Cep: 78.370-000 Fone: (65) 3332-1130 Atendimento: 07h00 às 11:00 e 13:00 às 17:00 horas

Tributo ao antigo contribuinte

 

Jeovani Lemes de Oliveira¹ 

A questão acerca da Reforma da Previdência é algo bastante delicado que vem preocupando a população brasileira contribuinte. Ou pelo menos deveria. Sobretudo os próximos da aposentadoria. É sabido que geral e historicamente o Governo não se dedica, não considera a população envelhecida. Há uma estória nipônica que elucida e expõe como isso é um equívoco. Trata-se da narrativa referente ao deus Aridôshi, contada pela escritora japonesa do século XI Sei Shônagon no livro Makura no Sôshi (Livro de Travesseiro). Por curiosidade, o nome Aridôshi significa passagem das formigas.  Ele era um Capitão da Guarda de um antigo imperador.

Consoante a narrativa de Shônagon, houve um imperador que ordenou o sacrifício de todas os habitantes acima dos quarenta anos. Os que não fugiram, foram efetivamente mortos.  O Capitão da Guarda era um bom filho, jovem e inteligente e optou por não desfazer de seus pais, que tinham aproximadamente setenta anos.  Então, cavou uma espécie de bunker debaixo de sua casa e abrigou seus pais.

Por essa época, o Imperador da China tentou apoderar-se do Japão. E, entendendo que os inferiores devem ser subjugados, engendrou ardis, estratagemas para provar a superioridade chinesa e assim comprovar a possibilidade do domínio chinês sobre os japoneses.  Enviou, como estratégia, questões embaraçosas para serem decifradas pelo soberano japonês. Como dilema a ser resolvido, foi enviado um tronco redondo e polido, com a pergunta sobre qual era a base e qual a ponta. Parecia impossível responder esse questionamento, dado que as extremidades eram exatamente iguais. O capitão, vendo que seu imperador estava| desesperado porque não conseguia resolver a questão, levou-a para seus pais. Estes aconselharam que levasse o tronco a um rio com água corrente, lançasse-o na água e observasse o tronco girar sobre seu eixo, e descer a correnteza seguindo o curso do rio. O pai explicou que a extremidade que enfrentar a corrente será a ponta.  Sendo assim, disse, é só marcá-la e reenviar o tronco ao imperador chinês.  Isso foi feito e a resposta foi aceita como a correta. Mas o imperador chinês enviou outro estratagema. Dessa vez foram enviadas duas cobras. A prova era distinguir qual era a fêmea. Novamente ninguém sabia a resposta, deixando o imperador japonês angustiado. Desta vez o pai recomendou que colocassem ambas lado a lado e aproximasse um galho fino delas, e informou que aquela que agitasse a cauda seria a fêmea. A experiência foi feita e definida qual fosse a fêmea, as cobras foram devolvidas à China com a devida distinção.

E, por um tempo, os japoneses ficaram tranquilos, até que chegou outro dilema, aparentemente insolúvel. Desta vez o imperador da China enviou ao Japão uma joia com sete curvas e furos nas extremidades.  Para provocar foi dito que na China qualquer pessoa simples conseguiria passar um fio através da joia. Essa proposição deixou o imperador japonês a beira do desespero. A única solução foi recorrer ao Capitão da guarda, que levou a questão a seu velho pai. Este orientou como solução atar um fio extremamente fino a formigas e, com mel, compeli-las a transpassarem pelos orifícios enviesados. E depois atar o fio definitivo nesse e assim será cumprida a tarefa. O conselho foi executado com maestria e a joia devolvida à China com o fio trespassando-a. Então, tendo tomado consciência acerca da inteligência dos japoneses, o imperador chinês desistiu de ameaçá-los com a invasão.

Por ter salvado o império da ameaça, o imperador japonês se prontificou em realizar o desejo do Capitão e decidiu dar-lhe também como recompensa o posto que desejar. Este afirmou não desejar posto algum, e pediu que se perdoassem todos os velhos, permitindo que retornassem às suas famílias. Entretanto, ele recebeu uma recompensa maior, dado que, em função das suas comprovadas qualidades o jovem capitão foi convertido em um deus. E seu nome Aridôshi provavelmente provenha do seu feito com a joia e as formigas. 

O que motivou a política do imperador japonês em relação aos mais velhos não se sabe. Mas temos experiências próximas e recentes cuja motivação e cujos agentes são muito bem conhecidos.  

A narrativa japonesa serve para reflexão acerca da importância das pessoas mais velhas na sociedade, mas serve também para informar que geralmente os governantes desprezam a contribuição dos mesmos, sobretudo porque consideram-nos como uma onerosa despesa.  No nosso caso específico, o bom senso manda sempre ficar atento e desconfiado em relação às reformas que se anunciam, ou melhor, com a proposta desse governo brasileiro fascista e neoliberal. Sobretudo porque ele é bastante maquiavélico. Seu discurso tem sempre um não-dito que privilegia seu grupo de apoio, a parcela que defende, em detrimento da grande população brasileira. E, como subentendido ardiloso, acaba sendo exposto à sociedade como algo favorável. Fato comum de seu discurso falacioso, como comumente são os discursos de direita.  Como diria Humberto Gessinger, os fascistas fascinantes deixam tudo interessante.

O fato é que esse discurso da direita brasileira é tão falacioso que parece um espelho de enganos. Chega ao paroxismo de parecer-se com a antítese de si mesmo. Na superfície é claro. Diante disso tudo, o povo brasileiro precisa de um olhar atento, de um conhecimento, uma perspectiva analítica mais madura do que comumente tem praticado.

 

____________

1- Graduado em Letras, especialista em Literatura infanto-juvenil e Ensino e mestre em Estudos Literários pela Unemat, campus de Tangará da Serra.